A partir de suas teses, Lutero afirmava que o papa era o anti-Cristo e que a igreja era o próprio reino do pecado. O papa respondeu ameaçando-o de excomunhão, através de uma bula (carta pontificial de caráter solene) . Lutero replicou destruindo a bula em praça pública. Diante da pressão católica, ele resolveu discutir política. Necessitando de proteção, publicou em 1520 o discurso "À Nobreza Cristã Da Nação Alemã" . Afirmava , nele, que os tributos cobrados pela Igreja e seu poder político eram injustos, e faziam um apelo aos príncipes alemães para que retirassem sua fidelidade ao papa e reformassem a Igreja na Alemanha. Lutero deixou claro que não desejava constituir nenhuma ameaça ao poder dos príncipes alemães, que considerava legítimo. Muitos nobres e príncipes responderam a seu apelo. A Reforma ganhou espaço entre os príncipes na luta contra a intervenção papal, considerada uma interferência estrangeira. Não restava a Lutero outra alternativa senão esconder-se para não ser preso. Nesse tempo de reclusão , cerca de um ano, traduziu para o alemão o Novo Testamento e estabeleceu os princípios fundamentais do luteranismo : aboliu a confissão, considerada obrigatória pelos católicos , o jejum , o celibato clerical e o culto aos santos. A reforma proporcionava aos nobres a oportunidade de confiscar as terras da Igrejas , abolir o pagamento de tributos e conseguir o apoio de seus súditos , agindo como líderes de um movimento religioso popular. Eles viam na Reforma uma maneira de resistir ao Santo Imperador Católico , Carlos V, que desejava entender sua autoridade aos príncipes alemães. Mesmo após a morte de Lutero, o luteranismo continuou a se fortalecer em diversos principados alemães. Em 1555, Carlos V, pressionado, assinou a paz de Augsburgo , que estabelecia : "A religião de quem reina é a religião do país". Cada príncipe determinaria a religião de seus súditos . Grande parte dos principados do norte se tornou protestante. O sul permaneceu católico. A divisão religiosa favoreceu a fragmentação do poder , criando um sério empecilho à unidade alemã. Fora dali, a mais importante versão do protestantismo amadureceu em Genebra.
Identificação De Pessoas
A "impressão digital" genética ou DNA fingerprint é tão segura quanto a identidade determinada por meio das impressões digitais, que são exclusivas de cada indivíduo. Uma explicação à parte deve ser feita quanto aos gêmeos monozigóticos. Eles têm o mesmo patrimônio genético e não se distinguem pela análise do DNA. No entanto, suas impressões digitais podem ser ligeiramente diferentes, pois durante o desenvolvimento embrionário podem surgir diferenças, mantidas após o nascimento. O DNA fingerprint tem sido útil para a identificação de pessoas , para esclarecer dúvidas sobre a possível participação de suspeitos em crimes e para realizar testes de paternidade. Os testes que utilizam DNA fingerprint fornecem certeza de 99,9% em seu resultado. Os cromossomos humanos contêm cerca de 35 mil genes diferentes , mas isso representa apenas 3% do conteúdo do genoma humano. O restante é formado por DNA não-codificante. Dentre as sequências de DNA não-codificante destacam-se as utilizadas para determinar o DNA fingerprint. Essas sequências chama-se VNTRs (Variable Number of Tandem Repeats = número variável de repetições em sequência) e são formadas por repetições de unidades compostas de poucos nucleotídeos. Em humanos, o número de nucleotídeos de cada unidade varia de 5 a 100. Cada indivíduo tem um padrão específico de repetições dessas unidades e esse padrão é herdado dos pais, de acordo com os princípios mendelianos. Obtendo amostras de células nucleadas de um indivíduo , pode-se isolar o DNA nuclear e cortá-lo utilizando enzimas de restrição específicas para se obter as VNTRs. Uma vez quebrado o DNA, isolam-se fragmentados de diferentes tamanhos, que são separados por uma técnica chamada eletroforese (do grego : phóresis= ação de levar ) em gel . Esses fragmentos são colocados em uma placa de gel, que é submetida a um capo elétrico com um lado positivo e outro negativo. Ocorre migração dos fragmentos de modo que os maiores migram pouco e os menores migram mais. Os fragmentos são separados de acordo com o tamanho e , depois de desligada a corrente elétrica , eles deixam de se movimentar, formando faixas na placa de gel. Essas faixas podem ser visualizadas com luz ultravioleta quando se adiciona à placa de gel um corante específico. O resultado é uma imagem fotográfica semelhante a um código de barras. Os fragmentos separados por eletroforese em gel são formados por DNA com cadeia dupla. Quando se pretende marcar determinados fragmentos, como no caso em que se pretende marcar as VNTRs, esses fragmentos têm suas cadeias separadas na placa de gel exatamente no lugar onde se encontram - desnaturação in situ . Coloca-se sobre eles uma membrana especial de nitrocelulose , na qual os fragmentos ficam aderidos exatamente na mesma posição em que estavam na placa de gel. Assim, essa membrana terá uma réplica das bandas obtidas por eletroforese. Nela serão adicionadas sondas (trechos de DNA já conhecidos) marcadas com radiatividade e que são específicas para as VNTRs. Essas sondas se unem ao DNA desnaturado (hibridação), marcando-o. Um filme filme de raios X é colocado sobre a membrana, e a radiatividade impressiona esse filme de forma que nele se obtêm as bandas indicando os locais onde ocorreram as hibridações.
Dominação e Controle
Ao analisar a cultura e a ideologia , vários autores procuram demonstrar que não se podem utilizar esses dois conceitos separadamente, pois há uma profunda relação entre eles , sobretudo no diz respeito ao processo de dominação nas sociedade capitalistas. O pensador italiano Gramsci (1891-1937) analisa essa questão com base no conceito de hegemonia (palavra de origem grega que significa "supremacia" , "preponderância") e no que ele chama de aparelhos de hegemonia. Por hegemonia pode-se entender o processo pelo qual uma classe dominante consegue fazer que o seu projeto seja aceito pelos dominados , desarticulando a visão de mundo autônoma de cada grupo potencialmente adversário. Isso é feito por meio dos aparelhos de hegemonia, que são práticas intelectuais e organizações no interior do Estado ou fora dele (livros , jornais , escolas, música , teatro , etc.) . Nesse sentido , cada relação de hegemonia é sempre pedagógica , pois envolve uma prática de convencimento , de ensino e aprendizagem. Para Gramsci, uma classe se torna hegemonia quando , além do poder coercitivo e policial, utiliza a persuasão , o consenso , que é desenvolvido mediante um sistema de ideias muito bem elaborado por intelectuais a serviço do poder , para convencer a maioria das pessoas , até as das classes dominadas. Por esse processo , cria-se uma "cultura dominante efetiva" , que deve penetrar no sendo comum de um povo , com o objetivo de demonstrar que a forma como aquele que dominava o mundo é a única possível. A ideologia não é o lugar da ilusão e da manifestação , mas o espaço da dominação, que não se estabelece somente com o uso legítimo da força pelo Estado , mas também pela direção moral e intelectual da sociedade como um todo , utilizando os elementos culturais de cada povo. Mas Gramsci aponta também a possibilidade de haver um processo de contra-hegemonia , desenvolvido por intelectuais orgânicos , vinculados à classe trabalhadora, na defesa de seus interesses. Contrapondo-se à inclucação dos ideais burgueses por meio da escola , dos meios de comunicação de massa, etc., eles combatem nessas frentes , defendendo outra forma de "pensar, agir e sentir" na sociedade em que vivem. O sociólogo francês Pierre Bourdieu desenvolveu o conceito de violência simbólica para identificar formas culturais que impõem e fazem que aceitemos como normal , como verdade que sempre existiu e não pode ser questionada, um conjunto de regras não escritas nem ditas. Ele usa a palavra grega doxa (que significa "opinião") para designar esse tipo de pensamento e prática social estável , tradicional, em que o poder aparece como natural. Dessa ideia nasce o que Bordieu define como naturalização da história, condição em que os fatos sociais, independentemente de ser bons ou ruins , passam por naturais e tornam-se uma "verdade" para todos. Um exemplo evidente é a dominação masculina , vista em nossa sociedade como algo "natural" , já que as mulheres são "naturalmente" mais fracas e sensíveis e , portanto, devem se submeter aos homens. E todos aceitam essa ideia e dizem que "isso foi , é e será sempre assim". Bourdieu declara que é pela cultura que os dominantes garantem o controle ideológico , desenvolvendo uma prática cuja finalidade é manter o distanciamento entre as classes sociais. Assim, existem práticas sociais e culturais que distinguem que é de uma classe ou de outra : os "cultos" têm conhecimentos científicos , artísticos e literários que os opõem aos "incultos" . Isso é resultado de uma imposição cultural (violência simbólica) que define o que é ter "cultura". A violência simbólica ocorre de modo claro no processo educacional. Quando entramos na escola , em seus diversos níveis , devemos obedecer sempre a um conjunto de regras e absorver um conjunto de saberes predeterminados , aceitos como o que se deve ensinar. Essas regras e esses saberes não são questionados e normalmente não se pergunta quem os definiu. Theodor Adorno (1903-1969) e Max Horkheimer (1895-1973) , pensadores alemães, procuraram analisar a relação entre cultura e ideologia com base no conceito de indústria cultural . Apresentaram esse conceito em 1947 , no texto "A Indústria Cultural : O Esclarecimento Como Mistificação das Massas. Nele , afirmavam que o conceito de indústria cultural, permitia explicar o fenômeno da exploração comercial e a vulgarização da cultura , como também a ideologia da dominação. A preocupação básica era com a emergência de empresas interessadas na produção em massa de bens culturais , como qualquer mercadoria (roupas, automóveis , sabonetes, etc.) , visando exclusivamente ao consumo , tendo como fundamentos a lucratividade e a adesão incondicional ao sistema dominante. Adorno e Horkheimer apontaram a possibilidade de homogeneização das pessoas , grupos e classes sociais ; esse processo atingiria todas as classes , que seriam seduzidas pela indústria cultural , pois esta coloca a felicidade imediatamente nas mãos dos consumidores mediante a compra de alguma mercadoria ou produto cultural. Cria-se assim uma subjetividade uniforme e, por isso, massificada. Os mais diversos filmes de ação , somos tranquilizados com a promessa de que o vilão terá um castigo merecido. Tanto nos sucessos musicais quanto nos filmes , a vida parece dizer que tem sempre as mesmas tonalidades e que devemos nos habituar a seguir os compassos previamente marcados. Dessa forma, sentimo-nos integrados numa sociedade imaginária, sem conflitos e sem desigualdades. A diversão, nesse sentido , é sempre alienante , conduz à resignação e em nenhum momento nos intiga a refletir sobre a sociedade em que vivemos. A indústria cultural transforma as atividades de lazer em um prolongamento do trabalho, promete ao trabalhador uma fuga do cotidiano e lhe oferece , de maneira ilusória , esse mesmo cotidiano como paraíso. Por meio da sedução e do convencimento , a industria cultural vende produtos que devem agradar ao público , não para fazê-lo pensar com informações novas que o perturbem, mas para propiciar-lhe uma fuga da realidade. Tal fuga, segundo Adorno , faz que o indivíduo se aliene, para poder continuar aceitando com um "tudo bem" a exploração do sistema capitalista.
Brasil Sempre
"Agitadores comunistas e criptocomunistas infiltraram-se nos comandos administrativos , sindicais e estudantis. Aqueles que em 1961, na crise da posse, defenderam o rígido respeito ao formalismo constitucional, queriam agora repudiá-lo , exigindo reformas estruturais (reforma agrária) em termos conflitantes com o texto magno. Para as massas operárias e camponesas , terrivelmente desgastadas pela inflação galopante , as reformas de base prometidas assumiam as cores da esperança. A situação econômica mostrava-se sombria. As greves multiplicavam-se com uma frequência febril. Nuncia se sabia quando era possível encontrar um banco aberto, tomar um avião para viagem urgente. As paralisações dos transportes urbanos formavam , a espaços curtos, melancólicas passeatas de usuários , no rumo dos empregos. Com as greves , subiam os custos da produção , aumentando o processo inflacionário. A majoração de salários (o mínimo geral ou profissional , o de certas categorias econômicas , a lapsos cada vez menores) repercutia imediata e intensamente nos custos industriais e comerciais, consumindo logo , na voracidade inflacionária , o aumento demográfico e ilusoriamente concedido. Em setembro de 1963 alguns sargentos amotinaram-se em Brasília , como reflexo da infiltração comunista nos quartéis . A imprensa democrática denunciava o perigo, recordando o exemplo trágico dos húngaros. Estudantes "profissionais" fomentavam greves , enquanto a maioria democrática deixava , pela quase omissão, que aqueles parecessem representar o pensamento geral do estudantado. Para contrabalançar a propaganda subversiva vinda de emissoras oficiais, radio-difusas de vários pontos do país congregaram-se na Rede da Democracia. A LIMDE (Liga das Mulheres Democráticas) impediu a realização de um congresso vermelho em Belo Horizonte . No Rio de Janeiro , formava-se a CAMDE (Campanha da Mulher pela Democracia) - era a sensibilidade nacional despertando. A 13 de março de 1964 realizou-se o Comício da Central, no Rio, ainda capital política e cultural , concorrendo empresas estatais para fazer confluir ao local massas de operários. Os cartazes agitados pela 'massa de manejo' exigiam da administração 'Reformas Já' , 'Legalidade para o Partido Comunista', etc. São Paulo reagiu , a 18 de março , através da primeira Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Mas a 25 , no Sindicato dos Metalúrgicos, no Rio , praças da Marinha solidarizaram-se com colegas punidos disciplinarmente . A 27 , promete o presidente não punir os amotinados. O ministro da Marinha exonera-se . Os sediciosos , postos em liberdade, promovem passeata. A 30, o Clube Naval expede manifesto apoiado pelo Clube Militar, denunciado a quebra da disciplina e ameaça às instituições: a hierarquia das Forças Armadas preparava-se para exercer , mais uma vez, a função de Poder Moderador , incluída no costume político-administrativo da República nos casos extremos de regime em perigo. A fidelidade ao regime sobrepunha-se à obediência ao governo que se omitia. O I Exército, deslocado para conter as colunas revolucionárias vindas de Minas Gerais e São Paulo, confraternizou . Fora a mais rápida revolução triunfante nacional: a 1¤ de abril, caía Goulart. Logo fugiu para Brasília , daí para Porto Alegre e , a 4 , na condição de asilado político, abrigou-se em Montevidéu. Outra vez , interinamente, assumiu a presidência da República o deputado Mazzilli. Surgia , como poder efetivo, o Supremo Comando Militar revolucionário.
Giordani, Marco Pollo. Brasil Sempre. Porto Alegre : Tchê! , 1986. P. 33-35.
Europa Oriental - Fim do Bloco Soviético
[Leste Europeu] Os países socialistas do Leste Europeu vêm forçando mudanças rumo à democracia. Em 1990 , quatro dos países mais ortodoxos do bloco socialista (a Bulgária , a Tchecoslováquia, a Polônia e a Alemanha Oriental) trocam o imobilismo do antigo sistema por eleições livres. Mas esses países , após tantos anos sem que o povo participasse de atividades políticas , não estavam preparados para uma passagem rápida à democracia de tipo ocidental , e isso lhes trouxe de início alguns desequilíbrios do sistema capitalista , como o desemprego , a inflação, o baixo poder aquisitivo , o arrocho salarial , etc. A crise do Leste Europeu se agravou com o fim do COMECON (Conselho de Assistência e Ajuda Mútua) , o fechamento de várias empresas e a demissão de milhares de trabalhadores. [Iugoslávia] A Iugoslávia era formada por 6 repúblicas : Croácia, Eslovênia , Sérvia , Bósnia, Macedônia e Montenegro. Tito governou a Iugoslávia e embora com diferentes nacionalistas , etnias e religiões , ele conseguiu mantê-la na unidade. Tito morreu em 1988. Até o ano de 1991 , havia um rodízio no governo , cada ano o governo seria exercido por um representante de uma república. O sistema fracassou e as lutas vieram. [O fim da Iugoslávia] Palco de lutas entre grupos e religiões diferentes , a antiga Iugoslávia manteve-se unida até o colapso do comunismo. A partir de 1992 , as regiões habitadas por bósnios e croatas declararam a sua independência. Os sérvios , que dominavam a maior parte da região, não aceitaram . Começou aí uma guerra em que atos de selvageria e violência tornaram-se a norma. Para desmoralizar os bósnios e expulsá-los de seu território, os sérvios criaram Campos de Concentração para os homens , violentaram mulheres , fazendo o que chamaram de faxina étnica. Os demais países envolver-se no conflito , com medo que este se espalhe. [Polônia] Em 1980, atendendo as reivindicações dos operários , o governo permitiu a formação de "sindicatos livres". O Sindicato Solidariedade (separado do Partido Comunista) liderado por Lech Walesa era uma forte esperança ao operariado polonês. As tensões se agravam no ano de 1981. O governo e o Sindicato Solidariedade entram em choque. Muitos participantes foram presos , inclusive o líder Walesa . a Polônia num grande país dentro da Europa. Em 1995, nas eleições presidenciais, Walesa foi derrotado.
As Cruzadas Vistas Pelos Árabes
"Enquanto para a Europa ocidental a época das cruzadas era o início de uma considerável revolução, ao mesmo tempo, econômica e cultural, no Oriente, as guerras santas iam desembocar em longos séculos de decadência e de obscurantismo . Sitiado por todas as partes , o mundo muçulmano se enrosca em si mesmo. Tornou-se fiorento, defensivo , estéril , tantas atitudes que se agravam à medida que prossegue a evolução planetária, em relação à qual ele se sente marginalizado. Doravante , o progresso é o outro. O modernismo é o outro. Seria preciso afirmar sua identidade cultural e religiosa rejeitando esse modernismo que simbolizava o Ocidente?[...] Ao mesmo tempo fascinado e aterrorizado por esses franj [nome dado pelos árabes aos cruzados europeus] que conheceu bárbaros , os quais venceu mas que , depois, conseguiram dominar a terra , o mundo árabe não pode resolver-se a considerar as cruzadas como um simples episódio de um passado remoto. Muitas vezes nos surpreendemos ao descobrir a que ponto a atitude dos árabes , e dos muçulmanos em geral, com relação ao Ocidente continua influenciada ainda hoje por acontecimentos que se considera terem encontrado o seu término há sete séculos. Ora , às vésperas do terceiro milênio, os responsáveis políticos e religiosos do mundo árabe se referem constantemente , a Saladino [herói muçulmano perpetuamente agredido, não se pode impedir a emergência de um sentimento de perseguição, que torna , ente alguns fanáticos, a forma de uma perigosa obsessão: não se viu, a 13 de maio de 1981, o turco Mehemet Ali Agca atirar no papa após ter explicado numa carta: 'Decidi matar João Paulo II, comandante supremo dos cruzados'? Além desse ato individual , está claro que o Oriente árabe vê sempre no Ocidente um inimigo natural. Contra ele, todo ato hostil, quer seja político, militar ou relativo ao petróleo , não passa de desforra legítima. E não se pode duvidar de que a ruptura entre estes dois mundos data das cruzadas , vistas pelos árabes , ainda hoje , como uma violação."
-MAALOUF, Amin. As Cruzadas Vistas Pelos Árabes.3.ed. São Paulo Brasiliense, 1998. P. 244 e 245.
Antes O Mundo Não Existia
Quando eu vejo as narrativas , mesmo as narrativas chamadas antigas, do Ocidente , as mais antigas , elas sempre são datadas. Nas narrativas tradicionais do nosso povo , das nossas tribos , não tem data, é quando foi criado o fogo , é quando foi criada a Lua , quando nasceram as estrelas , quando nasceram as montanhas , quando nasceram os rios. Antes , antes, já existe uma memória puxando o sentido das coisas , relacionando o sentido dessa fundação do mundo com a vida , com o comportamento nosso, com aquilo que pode ser entendido como o jeito de viver. Esse jeito de viver que informa nossa arquitetura , nossa medicina , a nossa arte, as nossas músicas , nossos cantos. [...] Alguns anos atrás , quando eu vi o quanto que a ciência dos brancos estava desenvolvida , com seus aviões , máquinas , computadores , mísseis , eu fique um pouco assustado. Eu comecei a duvidar que a tradição do meu povo , que a memória ancestral do meu povo, pudesse subsistir num mundo dominado pela tecnologia pesada, concreta . E que talvez a gente fosse um povo como a folha que cai. E que a nossa cultura, os nossos valores , fossem muito frágeis para subsistirem num mundo preciso, prático: onde os homens organizam seu poder e submetem a natureza , derrubam as montanhas. Onde um homem olha uma montanha e calcula quantos milhões de toneladas de cassiterita , bauxita , ouro ali pode ter. Enquanto meu pai, meu avô, meus primos , olham aquela montanha , cantam para ela , cantam para o rio... Mas o cientista olha o rio e calcula quanto megawatts ele vai produzir construindo uma hidrelétrica , uma barragem. Nós acampamos no mato , e ficamos esperando o vento nas folhas das árvores , para ver se ele ensina uma cantiga nova, um canto cerimonial novo, se ele ensina , e você ouve, você repete muitas vezes esse canto , até você aprender. E depois você mostra esse canto para os seus parentes, para ver se ele é reconhecido, se ele é verdadeiro. Se ele á verdadeiro ele passa a fazer parte do acervo dos nossos cantos. Mas um engenheiro florestal olha a floresta e calcula quantos milhares de metros cúbicos de madeira ele pode ter. Ali não tem música , a montanha não tem humor , e o rio não tem nome. É tudo coisa . Essa mesma cultura, essa mesma tradição , que transforma a natureza em coisa , ela transforma os eventos em datas , tem antes e depois.
-Krenak , Ailton. Antes , o mundo não existia. IN: Novaes , Adauto (ORG.). Tempo e História. São Paulo: Companhia das Letras , 1992.p. 202-3.
Estudo Em Laboratório
As populações formam-se e crescem graças à sua capacidade de reprodução. Se não houvesse obstáculo a esse crescimento , o número de indivíduos aumenta de forma exponencial , ou seja, em progressão geométrica. Por exemplo, em condições ideais , as bactérias reproduzem-se a cada 20 min . Se esse ritmo fosse mantido , em 15 horas haveria, a partir de uma única bactéria , uma população com mais de 1 bilhão de indivíduos e , em 36 horas , a Terra toda ficaria coberta por uma camada de bactérias. Uma comparação clássica para ajudar a visualizar a rapidez do crescimento exponencial consiste em imaginar que pudéssemos dobrar uma imensa folha de papel ao meio e repetir essa operação 42 vezes. Ao final, o papel teria uma espessura equivalente à distância da Terra à Lua (cerca de 386.400 km). Mas esse ritmo de crescimento não se mantém por muito tempo. Diversos fatores impedem que a população continue aumentando em progressão geométrica e a levam a atingir o equilíbrio : a quantidade de alimento , o espaço disponível , a influência de predadores e parasitas , a competição com outras populações pelos mesmos recursos, etc. Chamamos de potencial biótico ou reprodutivo a capacidade de uma população crescer em condições ideias (de espaço, alimento, temperatura , etc.) e longe da influência de predadores, parasitas e competidores. Resistência ambiental é o nome dado ao conjunto de fatores que se opõem a esse crescimento ; ela pode ser indicada pela diferença entre o crescimento máximo possível (o potencial biótico) e o crescimento real da população nas condições naturais. Vários cientistas estudaram populações de microrganismos em laboratório e observaram que, no início , o número de indivíduos crescia de forma exponencial. Depois, a partir de certo ponto , a velocidade de crescimento diminuía até a população parar de crescer , e o número de indivíduos permanecia aproximadamente constante. O gráfico do número de indivíduos , em função do tempo é chamado de curva em S , curva sigmoide (da letra grega sigma) ou curva logística. Ele indica que as populações que estão em baixas densidades crescem inicialmente com velocidade cada vez maior ( o que caracteriza o crescimento exponencial): a população está crescendo de acordo com seu potencial biótica. À medida que a população aumenta , a resistência ambiental começa a interferir e a frear a velocidade de crescimento. A população continua a crescer , mas a uma velocidade cada vez menor. Quando a resistência do meio se equilibra com o potencial biótico, a população para de crescer (velocidade de crescimento nula) e se estabiliza (número de indivíduos permanece constantes). Curvas semelhantes foram obtidos em laboratório com culturas de outros protozoários , fungos, bactérias e até de organismos mais complexos, como a drosófila . Nesses casos , foi possível concluir que:
1- A velocidade de crescimento depende da densidade da população: a partir de certo ponto , quanto maior a densidade , menor a velocidade de crescimento;
2- Há uma densidade máxima de indivíduos, chamada de capacidade de sustentação , capacidade de suporte ou carga biótica máxima, que determinado ambiente pode sustentar. A partir daí, a população permanece mais ou menos constante , flutuando em torno desse valor. Essa flutuação acontece porque os fatores da resistência ambiental variam ao longo do tempo.
Estudos Moleculares
Em termos bioquímicos, quanto maior a diferença entre os ácidos nucleicos e as proteínas de duas espécies , maior a distância evolutiva entre elas (quanto maior a distância evolutiva, maior o número de mutações nesse intervalo de tempo) . Assim, as semelhanças nas sequências dos aminoácidos de uma proteína ou no DNA podem indicar o grau de parentesco entre duas espécies . Um exemplo do uso desse método é a comparação entre a hemoglobina humana e a de outros mamíferos . A humana é igual à do chimpanzé ( mesma sequência de aminoácidos) e difere de animais cada vez mais afastados evolutivamente. Isso significa que seres humanos e chimpanzés são mais próximos evolutivamente entre si do que com outros animais . Em outras palavras, chimpanzés e seres humanos compartilham ancestral comum mais recente do que com outros animais . Um modo de medir a diferença genética entre duas espécies é misturar uma cadeia de DNA de uma espécie com uma da outra espécie. Essa técnica é chamada de "Hibridização de DNA", pois forma-se uma molécula de DNA "híbrida". Quanto mais semelhantes as duas cadeias , maior o número de pares complementares de bases e maior atração entre dois filamentos. Por isso, mais energia, na forma de calor, é gasta para separar as duas cadeias . Com base na temperatura de separação, possível reconstruir a sequência evolutiva entre duas ou mais espécies. As técnicas atuais de análise de ácidos nucleicos permitiram sequenciar o genoma de várias espécies, mostrando , por exemplo, que o genoma humano apresenta maior grau de semelhança com genoma com o chimpanzé do que com o de outros animais . A análise do DNA e dos cromossomos 2A e 2B do chimpanzé, por exemplo, mostrou a semelhança de várias das partes desses cromossomos com o cromossomo humano 2 indicando que este pode ter surgido da fusão entre dois cromossomos do ancestral comum de chimpanzés e humanos. Isso explicaria por que os humanos têm um par de cromossomos a menos (23 pares) em relação aos chimpanzés (24 pares). De fato, pôde ser observado que, no meio do cromossomo humano 2, há regiões de DNA que correspondem a partes inativas dos centrômeros e dos telômeros (regiões situadas na ponta dos cromossomos) dos cromossomos 2A e 2B dos chimpanzés . Essas técnicas de análises de sequências de aminoácidos e nucleotídeos permitem construir árvores filogenéticas dos grupos de organismos , que podem ser comparadas com as árvores construídas com dados morfológicos. Permite também descobrir a origem de novas doenças causadas por vírus . O sequenciamento do RNA do vírus da AIDS, por exemplo, ajudou a decifrar sua origem (O HIV-1 veio de um tipo de vírus que infecta chimpanzés e o HIV 2 , de outro tipo de vírus , que vitima os macacos-verdes) e a época aproximada em que o vírus passou de uma espécie para outra. Com novas técnicas para determinar a sequência de bases do DNA, pode-se estudar também a evolução de determinado gene ao longo das espécies, comparando diretamente as mudanças em sua sequência de bases. Como acabamos de ver , a teoria da evolução permite explicar grande número de fenômenos que , aparentemente, não teriam relação entre si: os fósseis, as adaptações , as semelhanças anatômicas, fisiológicas e moleculares entre os seres vivos , os órgãos vestigiais , entre muitos outros. Fica claro, portanto, o título de um famoso artigo do também famoso geneticista Theodosius Dobzhansky, um dos pais da teoria sintética da evolução: "Nada em biologia faz sentido a não ser à luz da evolução".
Membranas Semipermeáveis
Os cientistas descobriram que alguns materiais naturais têm uma interessante propriedade. Eles permitem que determinadas substâncias os atravessem, mas outras não. Como a palavra "permeável" significa " que deixa passar" e a palavra "impermeável" significa "o que não deixa passar" , tais materiais foram denominados materiais "semipermeáveis" , pois são seletivos quanto às substâncias que os atravessam. A membrana que reveste as células é um exemplo de material que apresenta seletividade sobre certas substâncias que a atravessam . As moléculas de água , algumas outras moléculas pequenas e alguns íons hidratos podem atravessar a membrana celular. Isso permite que substâncias necessárias ao funcionamento da célula entrem nela. Também permite que substâncias tóxicas produzidas por ela sejam eliminadas para o meio externo. Moléculas muito grandes não atravessam os orifícios da membrana celular, o que é importantíssimo para evitar que as células percam as proteínas e outras substâncias vitais para o seu funcionamento saudável. De modo bem simplista , podemos considerar que a permeabilidade seletiva está relacionada à existência de minúsculos orifícios nos materiais semipermeáveis. Esses orifícios , de dimensões microscópicas , permitem que partículas menores que eles os atravessem , mas partículas maiores não. Os químicos perceberam que algumas membranas naturais e também algumas artificialmente produzidas apresentam um caso interessante de semi-permeabilidade: permitem a passagem do solvente água, mas não de solutos nela dissolvidos. Essas membranas semipermeáveis estão envolvidas num acontecimento denominado "osmose".
Tudo Começa na Família
Mesmo considerando todas as diferenças , há normalmente um processo de socialização formal, conduzido por instituições , como escola e Igreja , e um processo mais informal e abrangente , que acontece inicialmente na família , na vizinhança , nos grupos de amigos e pela exposição aos meios de comunicação. O ponto de partida é a família , o espaço privado das relações de intimidade e afeto, em que, geralmente , podemos encontrar alguma compreensão e refúgio , apesar dos conflitos . É o espaço onde aprendemos a obedecer a regras de convivência , a lidar com a diferença e a diversidade. Os espaços públicos de socialização são todos os outros lugares que frequentamos em nosso cotidiano. Neles, as relações são diferentes , pois convivemos com pessoas que muitas vezes nem conhecemos. Nesses espaço públicos, não podemos fazer muitas muitas das coisas que em casa são permitidas. Nos locais de culto religioso , por exemplo, devemos fazer silêncio ; na escola , onde ocorre a chamada educação formal, precisamos ser pontuais nos horários de entrada e saída , e assim por diante. Há , entretanto, agentes de socialização que estão presentes tanto nos espaços públicos como nos privados: são os meios de comunicação- o cinema, a televisão, o rádio, os jornais, as revistas, a internet e o telefone celular. Estes talvez sejam os meios de socialização mais eficazes e persuasivos.
Primeira Guerra Mundial
A Itália , a Alemanha e o Japão iniciaram seu processo de industrialização apenas na segunda metade do século XIX e acabaram participando tardiamente da disputa neocolonialista. Com a presença desses países no processo de expansão imperialista , os confrontos entre as potências tornaram-se ainda mais acirrados. O aprofundamento das rivalidades entre as potências levou à formação de alianças militares que dividiram os países imperialistas europeus em dois blocos. Em 1882 , Itália , Alemanha e Áustria-Hungria formaram a Tríplice Aliança e , em 1907, Grã-Bretanha , França e Rússia estabeleceram a Tríplice Entente. Nesse período , o império Turco-Otomano se encontrava em processo de desagregação. Na península dos Balcãs (sudeste da Europa), a Bósnia-Hezergóvina , a Croácia e a Eslovênia, que anteriormente faziam parte de seu domínio territorial, foram incorporadas pelo império Austro-Húngaro . A região balcânica passou a ser uma frente de disputa com a Sérvia , que pretendia estender seu domínio por toda a península. Em junho de 1914, o arquiduque Francisco Ferdinando , herdeiro do trono Austro-Húngaro , foi assassinado em Sarajevo , capital da Bósnia, por um estudante pertencente à sociedade secreta Mão Negra. Esse grupo era formado por nacionalistas sérvios que se opunham à presença austro-hungara nos Balcãs. O assassinato foi interpretado pelo Império Austro-Húngaro como uma agressão sérvia e foi o fato decisivo para o estopim da Primeira Guerra Mundial. Na Primeira Guerra , a Alemanha e a Áustria-Hungria , da Tríplice Aliança (com apoio posterior da Turquia e da Bulgária), opuseram-se aos países que formavam a Tríplice Entente (Rússia, França e Grã-Bretanha). A Itália , que pertencia à Tríplice Aliança , declarou neutralidade num primeiro momento e , mais tarde , entrou na guerra , junto com o Japão, ao lado da Tríplice Entente , lutando contra seus ex-aliados. A guerra causou profundas transformações no espaço geográfico mundial no início do século XX. Os países europeus tiveram suas plantações arrasadas e houve forte retração da sua produção industrial . Com isso , eles passaram a depender basicamente dos Estados Unidos para se abastecer e se organizar economicamente . Os Estados Unidos , que já se colocavam como uma forte potência econômica, eram o principal credor da França , da Rússia e da Grã-Bretanha , para quem tinham fornecido armas, munições , alimentos e outros produtos básicos. Em 1917, os norte-americanos declararam guerra à Alemanha e entraram no conflito. Em julho de 1918. As tropas da França , da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos realizaram uma investida decisiva , obrigando à capitulação da Áustria-Hungria , da Bulgária e da Turquia . Para a Alemanha , a guerra só terminaria alguns meses depois , com a abdicação do Kaiser alemão e coma rendição incondicional desse país. Vários acordos de paz foram assinados , separadamente , pelos países derrotados na guerra , provocando profundas mudanças no mapa político da Europa. A Alemanha , rendida no final do conflito , teve que aceitar os termos de um acordo - o Tratado de Versalhes - que lhe impôs condições bastante severas: o pagamento das indenizações de guerra (que, por mais de uma década , minguaram a economia alemã) , a renúncia sobre todas as suas colônias e a perda da sétima parte de seu território e outros países da Europa. O desmembramento do Império Austro-Húngaro também levou à formação de outros países na Europa . Surgiram Estônia , Letônia , Lituânia , Finlândia , Iugoslávia e Tchecoslováquia. O vasto Império Turco-otomano ficou reduzido apenas à atual Turquia que teve que renunciar , a favor dos países vencedores da guerra, ao domínio que exercia no Oriente Médio : a Arábia Saudita , o Iraque e a Palestina passaram à tutela dos ingleses e a Síria e o Líbano foram ocupados pelos franceses. As novas fronteiras dos países europeus definidas pelos tratados no período pós-guerra eram instáveis. Elas reuniram , num mesmo território , germânicos e poloneses , germânicos e tchecos , muçulmanos e sérvios. Os conflitos entre esses diversos grupos que passaram a compartilhar o mesmo território nacional geraram uma instabilidade permanente , que teve graves consequências inclusive para a geopolítica do mundo atual.
O Estado Na Economia Globalizada
As atribuições do Estado inicialmente baseavam-se na defesa do território , no bem-estar das pessoas , na garantia da propriedade e no relacionamento político e comercial com outros Estados. Ao longo da história, essas atribuições foram aumentando. Com algumas variações de país para país , o Estado foi agregando uma série de outras funções , por exemplo:
1ª- Participação acionária em empresas dos mais variados setores;
2ª- Investimento em educação , saúde , moradia e pesquisa;
3ª- Pagamento de aposentadorias, pensões e seguro-desemprego;
4ª- Controle da circulação da moeda;
5ª- Realização de empréstimos a juros baixos e isenção de impostos para determinados grupo sociais (subsídios);
6ª- Estabelecimento de taxa de juros , que serve de base para as atividades financeiras , inclusive bancárias;
7ª- Construção e manutenção de equipamentos de infra-estrutura (rodovias , ferrovia , viadutos , portos , aeroportos , usinas e redes de distribuição de energia elétrica etc.).
Na década de 1980 abriu-se uma nova discussão sobre o papel do Estado , por causa das cries econômico financeiras em países subdesenvolvidos e dos elevados déficits públicos de muito países. Para os teóricos das organizações financeiras internacionais (banco Mundial e FMI) e para o governo dos EUA, a crise e a nova economia globalizada exigiam um Estado que não interferisse no livre comércio , que facilitasse a atuação das grandes empresas , que cobrasse menos impostos e reduzisse seus gastos , inclusive nos setores sociais (saúde , educação , moradia , previdência ). Essas idéias e proposta foram chamadas de neoliberais. O Estado , na concepção neoliberal , deve intervir pouco na economia , procurando eliminar as barreiras com comércio internacional , atrair investimento estrangeiros e privatizar as empresas públicas. Para os neoliberais, não é o papel do Estado extrair petróleo ou minério , administrar refinarias , siderúrgicas ou participar de qualquer outro tipo de atividade econômica. Cabe ao Estado estimular a pesquisa tecnológica para apoiar a iniciativa privada, assegurar a estabilidade econômica e facilitar o livre funcionamento do mercado. A produção de mercadorias é papel das empresas particulares. Os gastos do governo , inclusive os sociais (saúde; educação ; previdência social, por exemplo, pagamento de aposentadorias e pensões) devem ser restringidos , a fim de gerar receitas para o pagamento dos juros da dívida pública e para não acarretar déficits nas contas do governo. Além disso , a eliminação ou a modificação de alguns direito trabalhistas devem ocorrer para estimular novas contratações , uma vez que , segundo os neoliberais , os gastos das empresas com mão-de-obra acabam repassados ao preço dos produtos , que perdem competitividade no mercado internacional. Da mesma forma , os gastos do Estado em setores que amparam a sociedade (por exemplo, saúde e educação), não devem ser muito alto para que não acarretem também impostos elevados sobre as empresas e sobre a sociedade como um todo. A adoção das práticas neoliberais fez com que vários Estados enfraquecessem os mecanismos de controle da economia e das fronteiras comerciais, tornando os países subdesenvolvidos vulneráveis à atuação das grandes corporações multinacionais , originárias , em sua maioria , nos países desenvolvidos. Com isso , ampliaram-se as desigualdades (sociais e econômicas) entre os países , visto que o neoliberalismo e a livre concorrência atendem melhor os que t~em maior capacidade de investimento, tecnologia mais avançada e maior capacidade de atuação no mercado mundial, como é o caso dos países desenvolvidos.
Refrigerantes E Mergulhadores
O CO2 transportado pelo sangue humano toma parte do seguinte equilíbrio:
CO2(aq) + H2O(1) = H+ (aq) + HCO-3 (aq)
Nos tecidos do organismo , onde há produção de CO2 gramas à respiração das células , a [CO2] é alta e o equilíbrio é deslocado para a direita. Quando o sangue passa pelos pulmões, o CO2 é eliminado pela expiração e, como consequência , o equilíbrio é deslocado para a esquerda. Ao encher rapidamente alguns balões de borracha, você certamente percebe como é fácil ficar um pouco "atordoado". Ao enchê-los , está se eliminando muito rapidamente CO2 da corrente sanguínea. O deslocamento do equilíbrio para a esquerda reduz a [H+], afetando o pH do sangue. Pequeninas variações de PH do sangue são suficientes para provocar tonturas e até mesmo desmaios . (O pH do sangue humano permanece tipicamente na faixa de 7,3 a 7,5.) O CO2 é apenas um dos gases dissolvidos no nosso sangue. Há também O2, N2 e outros em menor quantidade. A pressão do ar influencia a solubilidade desses gases no sangue humano. Lembre-se da Lei de Henry : quanto maior a pressão, maior é a quantidade de gás que se dissolve. Quando um mergulhador desce a grandes profundidades carregando cilindro de ar comprimido , a alta pressão desse gás faz com que seu sangue passe a conter mais ar dissolvido do que conteria se estivesse na superfície. Se o mergulhador voltar à superfície muito rapidamente , a brusca redução de pressão reduz a solubilidade dos gases e isso faz com que sejam expulsos do sangue. Há formação de bolhas nas veias e artérias , impedindo o fluxo de sangue e provocando dores nas juntas e nos músculos , surdez , paralisia e até mesmo a morte. Essa situação pode ser comparada à de uma garrafa fechada de refrigerante . Nela, o gás se encontra dissolvido sob ação da alta pressão. Ao abrirmos a garrafa , provocamos uma súbita redução da pressão e , em consequência , diminui a solubilidade do gás. Repetidamente há formação de bolhas , dispersas por todo o líquido. Para mergulhos muito profundos , o ar comprimido é substituído por uma mistura de oxigênio e hélio, pois o hélio é menos solúvel no sangue do que o nitrogênio , atenuando um pouco o problema.
Subdesenvolvimento e Dependência
Após fazer uma análise crítica das teorias da modernização, vários autores , na década de 1960, procuraram explicar a questão da diferença entre os países por um outro ângulo , focalizando a história diferencial de cada sociedade e as relações econômicas e políticas entre os países. A pergunta que se fazia era a mesma proposta pelas teorias anteriores: por que os países da América Latina eram subdesenvolvidos e os da Europa e os Estados Unidos eram desenvolvidos? As respostas , porém, mudaram. Esses autores partiram de uma visão que foi desenvolvida pela Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), da Organização das Nação Unidas (ONU). De acordo com os estudos da Cepal , do ponto de vista econômico , mas relações entre países desenvolvidos havia uma troca desigual e uma deterioração dos termos de intercâmbio. Historicamente , isso se explicava por uma divisão internacional do trabalho, em que cabia aos países periféricos (dominados) vender aos países centrais (dominantes) produtos primários (agrícolas , basicamente) e matérias-primas (sobretudo minérios) e comprar produtos industrializados. Ao longo dos anos , foi necessário que os países periféricos vendessem mais matérias-primas e agrícolas para pagar a mesma quantidade de produtos industrializados , ou seja , trabalhavam mais e vendiam mais para receber o mesmo e assim enriquecer aqueles que já eram ricos. Os países centrais e os periféricos tinham passado diferente. Os países europeus foram as metrópoles no período colonial, ao passo que os da América Latina foram as colônias e, depois da independência, passaram a ser dominados economicamente pela Europa e pelos Estados Unidos. Isso prejudicou a emergência pela Europa e pelos Estados Unidos. Isso prejudicou a emergência de forças livres para o desenvolvimento autônomo os países periféricos. Andrew Gunder Frank , sociólogo alemão, afirmava que na América Latina havia apenas o desenvolvimento do subdesenvolvimento , pois os países centrais , além de explorar economicamente os periféricos, dominavam-nos politicamente , impedindo qualquer possibilidade de desenvolvimento autônomo. E essa relação desde o período colonial por que alguns tinham se desenvolvido e outros não. Um segundo grupo de sociólogos , do qual participaram o brasileiro Fernando Henrique Cardoso e o chileno Enzo Falletto, propôs uma explicação um pouco mais detalhada dessa relação. De acordo com sua análise , após a primeira fase de exploração, que durou até fim da Segunda Guerra Mundial , iniciou-se um novo movimento que aprofundou os mesmos bens primários para exportação, mas a partir da década de 1960 houve uma mudança, principalmente no Brasil, na Argentina , no Chile e no México : A internacionalização da produção industrial dos países periféricos. Como isso ocorreu? A industrialização dependente configurou-se mediante a aliança entre os empresários estrangeiros e nacionais e o Estado nacional. Os produtos industriais que antes eram que antes eram fabricados nos países desenvolvidos começaram a ser produzidos nos países subdesenvolvidos , porque era mais barato. Além disso, com a produção local, evitava-se o gasto com o transporte. Mas o fundamental era que as matérias-primas estavam próximas , a força de trabalho era mais barata e o Estado dava incentivos fiscais (deixava de cobrar impostos) e construía toda a infra-estrutura necessária para que essas indústrias se instalassem e funcionassem. Em alguns países onde havia essas condições , as grandes indústrias estrangeiras se instalaram e geraram um processo de industrialização dependente , principalmente , da tecnologia que traziam. Com isso, além de manter a exploração anterior. Os países centrais exploravam diretamente a força de trabalho das nações subdesenvolvidas. Essas teorias procuravam explicar a existência das diferenças entre os países , as possibilidades de mudança de uma situação a outra e as condições possíveis para que isso acontecesse no sistema capitalista , sem necessariamente questioná-lo.
O Cloreto De Sódio E A Osmose
Qual deve ser a concentração adequada de soluto no soro que é administrado em pacientes Por que o sal ajuda a conservar a carne seca? De que modo pode-se obter água pura a partir do mar empregando o conceito de osmose? As respostas a essas perguntas - ligadas à saúde , à alimentação e à substância do ser humano - relacionam-se ao conceito de osmose.
O sangue é formado por elementos celulares (glóbulos brancos, glóbulos vermelhos e plaquetas) e por uma solução aquosa de vários componentes, que é o soro sanguíneo . O soro sanguíneo apresenta uma pressão osmótica bem definida , que é a mesma pressão osmótica do líquido presente no interior das células sanguíneas. Um glóbulo vermelho , por exemplo , se for colocado em uma solução de pressão osmótica maior que lele, denominado meio hipertônico , perderá água por osmose e murchará. Se for colocado em um meio com pressão osmótica menor , um meio hipotônico , ganhará água por osmose e inchará até estourar. Só em um meio com uma pressão osmótica igual àquela de seu interior, um meio isotônico , um glóbulo vermelho não corre o risco de murchar ou de estourar. Assim, ao administrar na circulação de um paciente grandes volumes de líquido, é necessário que esse líquido apresente a mesma pressão osmótica do plasma sanguíneo . O soro glicosado é uma solução aquosa 5% em massa de glicose, que é uma solução isotônica ao sangue. Não oferece , portanto , risco às células sanguíneas. O soro fisiológico é uma solução aquosa de NaCI a 0.9% e também apresenta a mesma pressão osmótica do sangue. Seu uso consiste numa maneira de hidratar o paciente (repor água que foi perdida), sem risco de afetar as células sanguíneas. Na conservação da carne pela salga, produzindo a carne-seca (jabá, charque , carne-de-sol), o cloreto de sódio retira a água da carne , por osmose. também retira água de microrganismos eventualmente presentes, impedindo seu crescimento e sua atividade . Assim, a carne é preservada por mais tempo. A salga do pescado (por exemplo , bacalhau seco) baseia-se no mesmo princípio. A pressão osmótica da água do mar é da ordem de 27 atm. Essa é a pressão que deve ser aplicada a água do mar - separada da água pura por uma membrana que deixe passar apenas o solvente - para impedir que ocorra a osmose. Se a pressão exercida for superior a 27 atm, o fluxo osmótico é invertido , e água pura pode ser obtida por osmose reversa. Em algumas regiões desérticas já existem usinas nas quais água pura é obtida a partir da água do mar por meio do osmose reversa. A principal dificuldade envolvida nessa tecnologia diz respeito ao material da membrana semipermeável , já que ele deve resistir a altas pressões sem se romper. A ideia da osmose reversa também é usada para a fabricação de equipamento de sobrevivência para náufragos , permitindo que obtenham água pura a partir da água do mar. Para um náufrago sem água há muitos dias , a ideia de beber água do mar é uma tentação fatal. A água do mar não apresenta apenas cloreto de sódio , mas vários outros solutos , entre os quais sais de magnésio . Embora nosso intestino apresente mecanismo que permitam a absorção dos íons presentes nas comidas e nas bebidas , os íons magnésio (Mg²+) não são absorvidos com muita eficiência. Ao ingerir a água do mar, a concentração de íons magnésio dentro do intestino aumenta muito e, por osmose , água passa da circulação sanguínea para o interior do intestino , provocando diarreia . Assim, o náufrago não só deixa de saciar a sede , como também desidratar-se fatalmente por causa da diarreia. (Isso que acabamos de falar sobre os íons magnésio também explica por que existem laxantes baseados no hidróxido de magnésio - o leite de magnésia - e no sulfato de magnésio - o sol amargo ou sal de Epsom.) . Equipamentos portáteis baseados na osmose reversa permitem que um náufrago aplique pressão por meio de uma bomba manual , gerando pressão suficiente para produzir cerca de 4,5 L de água pura em cerca de uma hora., Já foi relatado o caso de um casal de náufragos que permaneceu 66 dias no mar alimentando-se de peixe e obtendo água por meio de kits de sobrevivência baseados na osmose reversa.
Sabe Com Quem Está Falando?
"Pelo reconhecimento social extensivo e intensivo em todas as camadas , classes e segmentos sociais, em jornais, livros , histórias populares , anedotário e revistas , a forma de interação balizada pelo 'sabe com quem está falando'? Parece estar mesmo implantada - ao lado do carnaval , do jogo do bicho, do futebol e da malandragem - no nosso coração cultural. [...] Outro traço do 'sabe com quem está falando?' é que a expressão remete a uma vertente indesejável da cultura brasileira. Pois o rito autoritário indica sempre uma situação conflitiva , e a sociedade dependente, colonial e periférica, a nossa tem um alto nível de conflitos e de crises . Mas entre a existência da crise e o seu reconhecimento existe um vasto caminho a ser percorrido. Há formações sociais que logo buscam enfrentar as crises , tomando-as como parte intrínseca de sua vida política e social, enquanto , em outras ordens sociais , a crise e o conflito não inadmissíveis. Numa sociedade a crise indica algo a ser corrigido; noutra , representa o fim de uma era , sendo sinal de catástrofe . Tudo indica que, no Brasil , concebemos os conflitos como presságios do fim do mundo , e como fraquezas - o que torna difícil admití-los como parte de nossa história , sobretudo nas suas versões oficiais e necessariamente solidárias. [...] Ora , o que o estudo do 'sabe com quem está falando?' permite realizar é a descoberta de uma espécie de paradoxo numa sociedade voltada para tudo o que é universal e cordial , a descoberta do particular e do hierarquizado. E essa descoberta se dá em condições peculiares: há uma regra que nega e reprime o seu uso. Mas há uma prática igualmente geral que estimula seu emprego. [...] Assim, o carnaval é gritado e o 'sabe com quem está falando?' , escondido. Um é assunto de livros e de filmes ; O outro, de eventuais artigos antropológicos , não sendo posto no rol das coisas sérias e agradáveis , como o futebol , o jogo do bicho e a cachaça. [...] Mas, para tornar a situação complicada , havia muitos casos em que o 'sabe com quem está falando?' tinha sido usado por um inferior (ou subalterno) contra outra pessoa qualquer , como identificação social vertical mediatizando o uso da fórmula , isto é , com o subordinado tomando a projeção social do seu chefe, patrão ou empregador , como uma capa de sua própria posição. Desse modo, são fartos os exemplos do empregado usando o ritual de afastamento do seguinte modo 'sabe com quem está falando?' Eu sou o motorista do Ministro!' (ou do General Fulano de Tal! Ou do Chefe do SNI!). Um caso colhido por um dos meus colaboradores e narrado pelo próprio empregado (uma doméstica) é um excelente exemplo dessas reações verticais intensas , em que existe a projeção de posição social: 'Eu tomava conta de uma fazenda de um coronel e seus subordinados gozavam da casa. Um, por causa de uma mudança de quarto , resolveu perguntar se eu sabia com quem estava falando. Mas , quando chegou o coronel, eu perguntei a ele quem mandava na casa e ele disse que era eu e o 'com quem tá falando pedir desculpas'. O poder de tais usos e a nossa familiaridade com essa forma de identificação social revelam seu impacto e a sua frequência no cenário brasileiro. [...] quanto mais alta sua posição , mais impacto ganha o uso do 'sabe com quem está falando?' pelos seus inferiores , pois o fenômeno relevante é o da projeção da posição social para mais de um indivíduo , revelando como em certas formações sociais uma determinada posição social pode recobrir mais que um indivíduo , tendendo a ser tomada como uma verdadeira instituição.[...]"
-DAMATA , Roberto. Carnavais , malandros e heróis . Rio de Janeiro, Rocio , 1994. P. 182-191.
O Que As Mitocôndrias Podem Informar Sobre A Evolução Humana?
Na década de 1980 , a análise de dados genéticos passou a fazer parte das investigações científicas a respeito da origem dos humanos modernos. Uma ferramenta importante é a análise do DNA mitocondrial. Como vimos anteriormente , nem todo o material genético de uma célula encontra-se no núcleo. Nos seres humanos, além do genoma contido nos 23 pares de cromossomos, existe o DNA mitocondrial , que é circular e contém 37 genes , cada mitocôndria contém diversas cópias dessa molécula. A herança do DnA mitocondrial difere dos padrões de herança do DNA nuclear , pois as organelas citoplasmáticas de um zigoto - incluindo as mitocôndrias - vêm apenas do gameta feminino. Os espermatozoides contribuem na formação do zigoto apenas com o centríolo e o conjunto haploide de cromossomos nucleares provenientes do pai. Apesar de mitocôndrias do espermatozoide entrarem no ovócito no momento da fecundação, elas logo degeneram. A herança do citoplasma, portanto, é transmitida basicamente pela mãe para a descendência. O DNA mitocondrial tornou-se uma ferramenta útil para interpretar eventos evolutivos recentes por dois motivos básicos:
-Ele apresenta uma taxa de mutação elevada; as mutações são a fonte primária de variedade entre as moléculas. A comparação entre moléculas homólogas pode informar o tempo de divergência entre elas a partir de uma condição ancestral ; quanto maior o número de diferenças , maior o intervalo de tempo. No DNA nuclear , com uma quantidade de nucleotídeos muito maior e uma taxa de mutação menor , essas diferenças são mais difíceis de ser analisadas; -Não há recombinação entre genes maternos e paternos no DNA mitocondrial , pois a mitocôndria é herdada apenas da mãe. Isso facilita a interpretação dos dados , pois a variabilidade no DNA mitocondrial de uma população pode ser considerada como resultado do acúmulo de mutações gênicas, e não de recombinação. A análise de DNA mitocondrial em populações humanas revelou que a variação nesse DNA em humanos atuais é muito pequena. Uma explicação para este fato é que os seres humanos originaram-se recentemente na escala do tempo geológico, o que é corroborado pelo registro fóssil. Outra observação importante foi que os africanos apresentam, dentre as populações humanas atuais , a maior variabilidade no DNA mitocondrial, o que pode indicar que se trata da população mais antiga. Esse dado também sustentaria a hipótese mais aceita atualmente de que os hominídeos surgiram na África. No entanto , existem outras interpretações possíveis para esses dados moleculares , como a de que a variabilidade do DNA mitocondrial em populações africanas resulte apenas do fato de serem descendentes de populações mais numerosas. Os dados moleculares certamente constituem uma ferramenta importante , mas sua interpretação não é fácil e ainda existem muitas controvérsias no meio científico em relação às hipóteses sobre a origem do Homo sapiens.
Os Sonhos Dos Adolescentes
Ao longo de 30 anos de clínica , encontrei várias gerações de adolescentes ( a maioria, mas não todos, de classe média) e , se tivesse que comparar os jovens de hoje com os de dez ou 20 anos atrás , resumiria assim: eles sonham pequeno. É curioso , pois, pelo exemplo de pais , parente e vizinhos, os jovens de hoje sabem que sua origem não fecha seu destino: sua vida não tem que acontecer necessariamente no lugar onde nasceram , sua profissão não tem que ser a continuação da de seus pais. Pelo acesso a uma proliferação extraordinária de ficções e informações, eles conhecem uma pluralidade inédita de vidas possíveis. Apesar disso, em regra, os adolescentes e os pré-adolescentes de hoje tem devaneios sobre seu futuro muito parecidos com a vida da gente: eles sonham com um dia a dia que, para nós, adultos , não é sonho algum , mas o resultado (mais ou menos resignado) de compromissos e frustrações. Um exemplo. Todos os jovens sabem que Greenpeace é uma ONG que pratica ações duras e aventurosas em defesa do meio ambiente. Alguns acham muito legal assistir , no noticiário, à intrépida abordagem de um baleeiro por um barco inflável de ativistas. Mas , entre eles , não encontro ninguém (nem de 12 ou 13 anos) que sonhe em ser militante do Greenpeace. Os mais entusiastas se propõem a estudar oceanografia ou veterinária, mas é para ser professor, funcionário ou profissional liberal. Eles são "razoáveis": seu sonho é um ajuste entre suas aspirações heroico-ecológicas e as "necessidades" concretas (segurança do emprego , plano de saúde e aposentadoria). [...] É possível que, por sua própria presença maciça em nossas telas, as ficções tenham perdido sua função essencial e sejam contempladas não como um repertório arrebatador de vidas possíveis , mas como um caleidoscópio para alegrar os olhos , um simples entretenimento. Os heróis percorrem o mundo matando dragões, defendendo causas e encontrando amores solares, mas eles não nos inspiram: eles nos divertem , enquanto, comportadamente , aspiramos a um churrasco [...] com os amigos. É também possível (sem contradizer a hipótese anterior) que os adultos não saibam mais sonhar muito além de seu raiz. Ora, a capacidade de os adolescentes inventarem seu futuro depende dos sonhos aos quais nós renunciamos. Pode ser que, quando eles procuram, nas entrelinhas de nossas falas , as aspirações das quais desistimos, eles se deparem apenas com versões melhoradas da mesma vida acomodada que, mal ou bem, conseguimos arrumar. Cada época tem os adolescentes que merece.
-Calligaris, Contardo. Os sonhos dos adolescentes. Folha de S. Paulo, 11 Jan. 2007. Ilustrada, p. E10.
A Mudança Social Para Os Clássicos Da Sociologia
Karl Marx- Em seus estudos sobre as transformações sociais, Marx também analisou a Revolução Francesa , mas a considerou puramente política, já que não alterou substancialmente a vida dos que nada tinham. De acordo com ele, apesar de ter sido fundamental para o fim do feudalismo, essa revolução foi parcial , pois , realizada por uma minoria , não emancipou a sociedade toda. Para Max o radicalismo de uma revolução está no fato de ela ser realizada por quem é maioria na sociedade. Só uma classe capaz de representar os interesses de libertação para todos pode liderar uma transformação, pois esta é sempre o resultado dos conflitos entre as classes fundamentais da sociedade. No capitalismo essas classes são a burguesia e o proletariado. E só o proletariado pode transformar essa sociedade. Mas por que a teoria marxista atribuía ao proletariado o poder revolucionário? O sociólogo francês Robert Castel esclarece isso no seu livro "As Metamorfoses da Questão Social" : A constituição de uma força de contestação e de transformação social supõe a reunião de pelo menos três condições - uma organização estruturada em torno de uma condição comum, a posse se um projeto alternativo de sociedade, o sentimento de ser indispensável para o funcionamento da máquina social. Se a historia social gravitou durante mais de um século em torno da questão operária , é porque o movimento operários realizava a síntese dessas três condições---> tinha seus militantes e seus aparelhos, era portador de um projeto de futuro , e era o principal produtor da riqueza social na sociedade industrial". Entretanto, para Marx , as transformações não parte do zero. Ela sempre nega e supera uma situação anterior ; os participantes de uma revolução utilizam a cultura e as tecnologias transmitidas pelas gerações anteriores para criar novas formas de organização produtiva e política. As transformações sempre incorporam alguma coisa do passado. A parte do passo que é incorporada e a maneira como isso ocorre muitas vezes condicionam o resultado das mudanças futuras. Há um processo de continuidade e ruptura que depende das forças sociais em conflito. Tais forças definem o que será preservado e o que será abandonado. Marx destacou que na atividade revolucionária os indivíduos se transformam para mudar as condições sociais em que vivem. Observou , ainda , que as revoluções só seriam possíveis por meio da violência , a "parteira da história" , pois os que detinham o poder jamais abririam mão dele e de seus privilégios pacificamente.
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